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fevereiro 20, 2007
# 1
Janeiro | Junho 2007
Neste número: poemas de Philip Larkin escolhidos e traduzidos do Inglês por Pedro Silva Sena * Poemas de: José Maria de Aguiar Carreiro ~ Pedro Silva Sena * Alto Teatro no Barroso, de Alberto Augusto Miranda.
*
«- Estes - disse o cura - não devem ser de cavalarias, mas de poesia.
E abrindo um viu que era a Diana de Jorge de Montemor, e disse, crendo que todos os outros eram do mesmo género:
- Estes não merecem ser queimados, como os demais, porque não fazem nem farão o dano que os de cavalarias fizeram, que são livros de entretenimento sem prejuízo de terceiro.
- Ai, senhor! - disse a sobrinha -, bem os pode vossa mercê mandar queimar como aos demais, porque não seria novidade que, tendo sarado o senhor meu tio da enfermidade cavalheiresca, em lendo estes lhe aprouvesse fazer-se pastor e ir-se pelos bosques e prados, cantando e tangendo, e, o que seria pior, fazer-se poeta, que segundo dizem é enfermidade incurável e pegadiça.»
Miguel de Cervantes - Dom Quixote de la Mancha (1605)
*
URGÊNCIA
Philip Arthur Larkin (1922 - 1985)
Philip Larkin, poeta, romancista, crítico de jazz e editor, nasceu em Coventry, Midlands, no Reino Unido. Após ter sido Leitor de Inglês em Oxford (St. John's College), torna-se bibliotecário - primeiro na universidade de Leicester, e, mais tarde, na de Hull; cargo este que assegurou até ao fim da sua vida. Os poemas que agora começamos a publicar, foram escolhidos de entre os de The Whitsun Weddings (1964), livro que consagrou publicamente Philip Larkin enquanto poeta (conferir em http://en.wikipedia.org/wiki/Philip_Larkin).
Os Dias
Para que servem os dias?
Os dias são o lugar onde vivemos.
Chegam, despertam-nos,
Uma e outra vez, repetidas vezes.
Existem para sermos felizes neles:
Onde é que podemos viver a não ser dias?
Ah, a resposta a esta questão
Traz o padre e o médico
A correrem pelos campos
De sobretudo.
Days
What are days for?
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?
Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.
~
Ignorância
Estranho nada saber, nunca ter a certeza
Do que é verdadeiro, certo ou real,
Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto
Ou Bom, é o que parece:
Alguém deve saber.
Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam:
A sua capacidade de encontrar o que necessitam,
O seu sentido de forma, e o espalhar da semente preciso,
E a sua vontade de mudar;
Sim, é estranho,
Trazer vestido até tal conhecimento – pois a nossa carne
Cerca-nos com as suas próprias decisões –
E ainda assim gastar a vida em imprecisões,
Tanto que quando começamos a morrer
Nem fazemos a ideia do porquê.
Ignorance
Strange to know nothing, never to be sure
Of what is true or right or real,
But forced to qualify or so I fell,
Or Well, it does seem so:
Someone must know.
Strange to be ignorant of the way things work:
Their skill at finding what they need,
Their sense of shape, and punctual spread of seed,
And willingness to change;
Yes, it is strange,
Even to wear such knowledge - for our flesh
Surrounds us with its own decisions -
And yet spend all our life on imprecisions,
That when we start to die
Have no idea why.
~
Recordação
Essa era muito gira, ouvi-te eu gritar
Do corredor insatisfatório
Para o quarto insatisfatório onde eu
Punha a tocar disco atrás de disco, indolente,
A gastar o meu tempo em casa, de que tu
Estavas tão desejosa de.
Era Oliver, Riverside Blues. E agora,
Suponho, terei presente, sempre,
Como aqueles negros fora de moda sopravam o bando de notas
Do ar de Chicago
Para uma enorme trompa pré - eléctrica de rememorar
O ano seguinte ao do meu nascimento
Três décadas depois fez esta repentina ponte
Da tua idade insatisfatória
À minha insatisfatória primavera.
Na verdade, embora o nosso elemento seja o tempo,
Não estamos talhados para as longas perspectivas
Abertas a cada instante das nossas vidas.
Elas tecem-nos laços com as nossas perdas: pior,
Mostram-nos o que temos tal como o tivemos,
Cegamente incólume, tal como se,
por agirmos de outro modo, o pudéssemos ter assim mantido.
Reference Back
That was a pretty one, I heard you call
From the unsatisfactory hall
To the unsatisfactory room where I
Played record after record, idly,
Wasting my time at home, that you
Looked so much forward to.
Oliver's Riverside Blues, it was. And now
I shall, I suppose, always remember how
The flock of notes those antique Negroes blew
Out of Chicago air into
A huge remembering pre-electric horn
The year after I was born
Three decades later made this sudden bridge
From your unsatisfactory age
To my unsatisfactory prime.
Truly, though our element is time,
We are not suited to the long perspectives
Open at each instant of our lives.
They link us to our losses: worse,
They show us what we have as it once was,
Blindingly undiminished, just as though
By acting differently we could have kept it so.
~
Sapos (Revisto)
Dar uma volta pelo parque
Devia saber melhor que trabalhar:
O lago, o sol a brilhar,
A relva para nos deitarmos,
Sons de brincadeira esborratados
Por detrás de enfermeiras de meia preta –
Não é um sítio desagradável,
Porém, não me convém,
Sendo eu um daqueles homens
Que se conhece em uma tarde:
Velhos paralíticos de passinhos curtos,
Escriturários com nervos miudinhos e olhos de lebre,
Pacientes de ambulatório pálidos como cera
Ainda turvos dos acidentes,
E personagens de sobretudo
No fundo dos caixotes do lixo –
Cada um a fintar o trabalho do sapo
Sendo estúpido ou fraco.
Imaginem-se assim como eles!
A ouvir as horas a soar,
Observando o pão a ser distribuído,
O sol obnubilar-se,
As crianças a irem para casa;
Imaginem-se assim como eles,
A entregar os falhanços
Por um leito de lobélias,
Sem ter para onde ir senão entre as quatro paredes,
Sem amigos excepto cadeiras vazias –
Não, dêem-me a minha correspondência
A minha secretária de cabelo cor de pão
A minha senhor-doutor-mantenho-esta-chamada-em-espera:
Que outra resposta posso eu dar,
Quando as luzes se acendem às quatro
No final de mais doze meses?
Dê-me o braço, amigo sapo;
Ampare-me até à Quinta dos Silêncios.
Toads Revisited
Walking around in the park
Should feel better than work:
The lake, the sunshine,
The grass to lie on,
Blurred playground noises
Beyond black-stockinged nurses -
Not a bad place to be.
Yet it doesn't suit me,
Being one of the men
You meet of an afternoon:
Palsied old step-takers,
Hare-eyed clerks with the jitters,
Waxed-fleshed out-patients
Still vague from accidents,
And characters in long coats
Deep in the litter-baskets -
All dodging the toad work
By being stupid or weak.
Think of being them!
Hearing the hours chime,
Watching the bread delivered,
The sun by clouds covered,
The children going home;
Think of being them,
Turning over their failures
By some bed of lobelias,
Nowhere to go but indoors,
No friends but empty chairs -
No, give me my in-tray,
My loaf-haired secretary,
My shall-I-keep-the-call-in-Sir:
What else can I answer,
When the lights come on at four
At the end of another year?
Give me your arm, old toad;
Help me down Cemetery Road.
Tradução: Pedro Silva Sena
SALA de ESPERA
José Maria de Aguiar Carreiro
(Ler mais deste autor em Folha de Poesia: http://folhadepoesia.com.sapo.pt)
Imagem
Há um sonho desfeito a rasurar a noite
Acarta as pedras e morre sobre a polidez
Das coisas.
Há um gosto mineral vogando
A permitir que ao retirar a tampa
Todos rejubilemos.
Faremos festa. O ícone desfere,
Retumbe enorme e grosso. Sonhamos.
Oh meu bem, os dias percutem tremendos.
Uma fenda, um ícone rilkeano.
Um tremendo bocejo até aos ossos dos pés.
Meu bem, sigam eles e actuem
Tão interiores arrebatados fazem promessas
A dia com exemplos, líricos.
Um Lume Destroçando a Visão
Gostara do falatório, aquele límpido discorrer de graças
Dos ditames da meia idade
Mas eu já não estava ali, no canto desperdiçado de uma casa.
Quis comemorar um sentimento igual, desejo límpido não rasurado
E trazer igual o desejo de outras épocas.
Poderia ler o dia, a luz aberta a cozinhar durante horas
O vago violoncelo que toca em tua e minha memória comum
Diria também as palavras que se repetem em espaços por corpos idênticos
E que afastados refazem o tempo inoperante.
Na boca o corpo demora-se em latitude distante
Por claustros, sorrisos solapados
Parecendo comerciar o ralhar dos melros
Mas disso não faria um joguete, um lardear de pívias
A porta aberta para fugir.
Onde o lugar das calças, das camisas?
Trova para esses momentos desabitados.
Eu brinco, ando pela casa, olho tudo finitamente
Eliminando a grande altitude o uivar do lobo.
Tudo o que é previsível está aqui como peça de mobiliário
Erradamente
Abortando a luz de deus com um arame de siso, riso, mijo.
Estendo horizontalmente o deus verde
Cubro de vómito de cantador
O efeito de dejectar o que já não importa
Cubro com pastel o que outrora foi lançado à germinação.
Eu quero um lume destroçando a minha visão.
Bicho da Terra
para Miguel Torga
“Nada há de permanente debaixo do sol” (Eclesiastes)
Sei do condão da mente e do condão da carne
Sobre a mente. O sexo tangível da idade.
Eu sou a veloz condução dos congéneres bichos
Que são da terra, que se agitam nos telhados
E desviam nossos olhares para lá das paredes sujas.
Atrevo e atiro para o chão as trevas e as glórias altas
Faço e desfaço altos silos, combatentes reprogramações –
Partes de um mesmo todo indefinido e inteligente?
Tudo é aluído na terra e será conforme a dor.
Modulo no vazio. Nem uma lápide, um livro ou uma oração
Perdurarão no tempo.
É limitada a rede com que um homem se diz
E, no entanto, deseja
Cortada rede com que principia
Cortados fios que tece.
Deixarei estas palavras na crueza do corpo
Num amplo quarto de um manicómio ou de uma prisão.
O Fraco Momento da Vida
Pode um homem querer mais do que é
Ou apenas abarcar o prazer momentâneo
Imaginar o belo, o infinito
Pode um homem supor ser desejado por alguém
Tão igual ao desejo que nem se aperceba da figura
Do olhar e das palavras de uma casa que não é a sua.
Como olhar-se ao espelho, ver a pele envelhecida e dizer sou eu
Quando estão as sensações fora do alcance da pele
Dir-se-á velho? velho
Que palavras inventará para esconder as falhas da carne
O bloqueio do desejo pela mente cansada
Augura ele uma decrépita e eterna valia?
*
Pedro Silva Sena
(Ler mais deste autor em A Árvore das Palavras (http://arvoredaspalavras.blogspot.com) e Bubok (www.bubok.pt))
Onírica Camoniana
Ó senhora de meus olhos a luz que os ilumina e os conduz sois vós quem domina o meu claro ser que é amá-la o seu sentido sem vossa graça perdido e assim a vida esquecer.
Fingerbib (Aphex Twin)
pára entras segues contigo sobre as ruas repetidas pára saem entram segues contigo pelas linhas coloridas do diagrama pára saem entram segues contigo um rosto pormenores de corpo onde te demoras tenso de trânsito pára saem entram segues contigo dentro da música pára saem entram segues contigo o traço cor de rosa de um airbus nos últimos minutos do sol pára sais entram segue
~
longo o brilho pelágico do rio não tens como tê-lo só a impressão o sabê-lo ali nas goelas das ruas admirado de longe dos miradouros cruzado por barcos
~
Os Jardins de Generalife
fragosas as brisas sussurram elanguescidas as sombras estremecem indolentes as águas brilham serenas as espumas
EM CARNE & OSSO
Alberto Augusto Miranda
(Ler mais deste autor em Arditura,
http://arditura.blogspot.com, ou em Incomunidade, http://incomunidade.blogspot.com)
Alto Teatro no Barroso
Não se sabe o que fazem, porém mexem-se.
Alinham os bodes sem formatura no mais castanho-vivaz dos carreiros entre-verdes.
A sagesse caprina domina as presenças ignorantes, sua quietude altaneira oprime os compassados, os que inverteram o grito e são agora profissionais, batem, por exemplo, no burro sempre que o social os aliena.
Eu sou aquele burro chibatado e cheio de moscas. Não saio, não mexo. Não quero ir para empresário, professor ou empreiteiro. O burro que estranha a neurose do homem e lhe pergunta em tom muito baixo e de muito pudor: "Que mal te fiz para me tratares dessa maneira?”
Não é preciso fazer mal. Não é preciso mal. Pelas linhas das alturas, onde se descansa da temporada, vê-se: o male é ser através do burro. Quieta-me a Benta com seu humor de oboé e desobrigações.
Aparentemente há chuva, este redondo de acolitados só se salva olhando para cima.
E ouve-se nada, o mundo é de pedra.
Na fraternidade de todos os cornos que nos igualam, sobrevém imperiosa a pulsão da viagem. Vamos todos, todos de outra maneira, e de outra maneira vestidos, cada um no seu barco de sair.
Olhei para ela com vagares de boi.
O mundo era muito antigo em meu gutural. Li as estantes como esporas epitalâmicas onde a conquista é levada ao registo.
Respirei na fonte das lembranças, com particular adição gástrica. Queria irmanar-me às perdizes, às que perdizem.
Vestia-se em quadriculado, uma aberta fórmula de apetite.
Tinha serraneado uma linha convexa onde armazenava, com rigor doméstico, suportes históricos de uma existência livresca.
Hercúlea e possuidora de uma certa ramada alta, prodigalizava toques de afecto que enchiam os parabéns da autoestima.
Mais abaixo, em hors-texte com o nome de eiralonga, agitei o corpo em direcção ao paroxismo. Um espigueiro de antanho guardava-me as vivências dos fenos.
E abri o Sul, com o disparo simétrico de uma fotografia, pelo cotejo infernal a que as vadiagens obrigam. Sorri à necessidade da Mariana. Ela estava pronta a esquecer, a reconhecer todas estas sombras.
A Rata pôs-se em tantopé, avaguardando os interditos para o imediato comer matinal. O segredo, Benta segredação, era um contínuo semi-piscar de olhos que nunca ultrapassavam 1/4 da abertura regular.
Metia-se, ela, então, no pão e na estratégia. De tudo se abstinha como uma castrada actriz de bergman. Relançava, em após, as pernas quase-nada pernas, em motor de vidinha abstracta, pós-moderna, jamais desaguante, o dia seguinte era o destino a assegurar.
Havia, nos dentros, um tecido áspero tearizado com a nunca explicitação, a révanche inconcluída como múnus da sobrevivência.
Os certos andavam no prodígio dos crimes, uma pedra impunha o homem que "morreu em luta com o trabalho", fosse o que fosse, pedia, exigia, uma dramaturgia.
Podíamos dizer: houve Salto, era uma libido de balzac, circunstância e exponência, uma rejeição do havido, um impromptu sobre o devir.
Num dos bares, em sonoras parangonas, os mestres do pimba cult encontravam mais uma enseada, gente sem saber o que fazer ao corpo: trasmontanos, brasileiros, ucranianos, proprietários insatisfeitos.
Deitavam-se com a Lei: A Domus.
O paralelo era impossível, nada de cotejos, mesmo nada de cortelhos, abafar as insências em invisibilidade: só o homem, esse animal de nada.
Resta-me pouco.
Não deve dar para riscar, sou um cisco diminuído, um aero-invisível, só as vacas me esbulhagam os olhos com amabilidade e alguma simpatia erótica.
Até a dor acorda mal servida de corpo, os bichos pequenos fogem de mim, sou a palha seca, ainda pesada para as célias, as andorinhas.
Não devia ter voltado, não devia ter aquiescido, puta de memória, vale da tragédia. Saber, sem ter o sabor, da lembrança de fazer corpos com poemas, essas gritarias de emigração.
Não tenho pena de entregar o vasilhame à terra.
Todo bebido, só os pinhais e os musgos me comeram a nudez. O restante biónico é uma devolução. Aqui me vejo, ilíquido. Sólidas, só as imagens, a ruga de as ver, a anestesia do deslumbramento sem sensação. Branco e Vermelho, a peçonha de existir.
Publicado por Pedro Silva Sena às fevereiro 20, 2007 12:31 PM
Comentários
Publicado por: Manuel Bento às março 19, 2007 11:46 PM