« fevereiro 2007 | Entrada | janeiro 2008 »
julho 03, 2007
# 2
Julho | Dezembro 2007
Neste número: Evocação : Era um Redondo Vocábulo, de José Afonso * Revisitar : Arquimedes da Silva Santos * Sem-Rosto Poemas de Alves Bento Belisário ~ Andréa Catrópa ~ Pedro Russo Moreira ~ Pedro Silva Sena * Electrónicos páginas pessoais, blogues e revistas de poesia
Evocação
José Afonso (1929-1987)
Era um Redondo Vocábulo
Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa
(1973)
*
Revisitar: Arquimedes da Silva Santos
Arquimedes da Silva Santos, médico, pedagogo, actor e poeta, nasceu em Póvoa de Santa Iria, Vila Franca de Xira, a 18 de Junho de 1921. Na segunda metade dos anos trinta, através das amizades que estabelece e dos textos que começa a redigir, vem a integrar uma rede de jovens intelectuais empenhados politicamente no combate à ditadura - o qual a historiografia cunhará, mais tarde, de «Grupo Neo-Realista de Vila Franca de Xira». Em Coimbra, cursando Medicina, integra o Teatro dos Estudantes Universitários de Coimbra e traduz O Grande Teatro do Mundo, de Calderón de la Barca - em conjunto com Manuel Deniz Jacinto e Paulo Quintela (Atlântida, 1945) -, e A Sapateira Prodigiosa, de Federico Garcia Lorca (1946). São desta época os três primeiros poemas aqui revisitados, dados à estampa originalmente em uma antologia sob o título de «3 Rimances Ribatejanos». Em 1958, após prisões, e apesar da perseguição política, consegue ver editado o livro Voz Velada, do qual seleccionámos os restantes poemas. A sua obra poética é coligida e publicada pela primeira vez em Cantos Cativos (Portugália, 1967), reunindo os textos aqui apresentados bem como outros que foi publicando em periódicos como O Diabo, o Mensageiro do Ribatejo e a revista Vértice (cf. ainda, Arquimedes da Silva Santos. Caminhos de uma Vida, GTE/APMNR, 2000).
~
4
Ti-varino nos contara
sentado numa bateira
que dantes o rio era
um lindo jardim de peixe.
Mas numa tarde de inverno
lá se foram as companhas
para lançar as savaras.
As águas eram tão negras
como as nuvens pelo céu.
E no silêncio do rio
só se ouviu numa bateira
alguém que dizia assim:
- Lança a rede camarada
Lança ao rio depressa a rede
que a tarde vai caindo
e há chuva prá noite escura.
Lança a rede camarada
enquanto o vento não muda
que se ele vira desta safra
talvez já não comeremos.
Lança a rede camarada.
Quando veio a noite escura
veio com ela muita chuva
soprada por vento duro.
Era o rio como que um mar.
Fazia ondas tão altas
que não havia lembrança.
Foi tão grande o temporal
nessa noite choveu tanto
que as águas do rio subiram
arrombaram com valados
entraram pelas campinas.
Foi-se o trigo e foi-se o gado.
Ai meninos que tristeza
havia em todos os peitos.
Não há palavras que digam
a desgraça desse dia.
Pelas muralhas dos cais
eram só gritos e lágrimas.
Com vento e ondas e chuvas
té se apagaram as luzes
que guiam os cabeceiros.
E a noite era tão escura
que nem deixava ver
as bateiras que chegavam.
Mas de hora a hora lá vinha
aportar mais uma ao cais.
E por essa noite adiante
vieram todas só uma
só uma das que partiram
ai não voltou nunca mais.
Esperou-se a madrugada
outro dia e outra noite
pela bateira perdida
que não tornou a voltar.
E quando as águas baixaram
ó quantos a procuraram.
Nem que andassem a vida inteira
que pescador afogado
é levado pelos peixes
para o seu reino do mar.
E os peixes que os levaram
até hoje não voltaram.
É esta a história meninos
porque o rio já não é
um lindo jardim de peixe.
Cada safra que fazemos
custa-nos muito trabalho
e às vezes as redes vêm
vazias como as lançámos.
E hoje todos dizemos
quem nos dera que o rio fosse
como o Tejo dantes era
um lindo jardim de peixe.
8
Adeus trigo ai adeus trigo
Depois de ceifado adeus
Amanho-te e não mastigo
Nem eu nem eu nem os meus.
Searas cor do sol posto
Meu mar alto de aflição
Encho-o com suor do rosto
Em troca falta-me o pão.
Ai campos como os meus olhos
Rasos de água tanta vez
Foram-se espigas nos molhos
Vem fome pró camponês.
Ó escravo da campina
Ouve o motor do tractor
Com ele mudas a sina
Da terra és conquistador.
9
São lezírias céu lezírias.
Campo verde de trigais
Campo rubro de papoilas
Almas vivas de esperanças
Sangue virgem de moçoilas.
São lezírias sol lezírias.
Campo amarelo de mostardas
Campo trigueiro de espigas
Corpos em desesperança
Lagrimas de raparigas.
São lezírias céu e sol.
Lezírias longas e lânguidas
Com céu de aço e sol a meio
E moças encarquilhando
Na ceifa do trigo alheio.
Beija-Tejo [1939-1945], Cantos Cativos (1967)
Desta janela
A rua
Ondeia qual um rio.
E uma andorinha nela
Faz de navio
À vela
Que flutua.
~
O guardador de pombas
Solta-as pela tardinha.
E voam e revoam
Em círculos e curvas e espirais.
Ruflam céleres
E fogem
E tornam e retornam
E com o pôr do sol
Recolhem aos pombais.
E o guardador de pombas
Julga tê-las
Com seus fios de assobios...
Voz Velada (1958)
Sem Rosto
Alves Bento Belisário
(Ler mais deste autor em Correntes de Poentropia, www.correntesdepoentropia.blogspot.com)
Aberto um livro
Trago à cabeceira;
Não sei se o abrace,
Se o queira.
Bordam-me teias de sonho
E fios de magma.
Um deserto em lama,
Dolo a que resisto mas nada oponho.
~
Morre-se demoradamente
E de morte assaz lenta
Pendurados em manhãs
Sem livros e enxuto leite…
E é ter como único e sério deleite
O cúmplice perfume a rosas e hortelãs
Da sexualidade com pétalas e desatenta
Às palavras que a embriaguês lasciva não consente.
Morre-se demoradamente
E de morte assaz lenta
Sentados em crepúsculos de areia,
Condenados ao esquecimento atroz
Dos pulsares que não usam palavras ou voz…
A palavra em sua ramificada teia
Tudo acolhe, mas nada sustenta.
O sol dos beijos a noite perpassa de vermelho quente.
~
As lágrimas
do mundo
são todas
pertença
minha…
O corpo
de uma flor
tem mais
recantos de
humanidade
que todos
os homens
do mundo…
~
Os minutos em linha
São retalhos de prostituição
Que tudo desmascara e vence.
A vida em mim e que é minha
É vida que trago e que não
Me pertence.
E contudo eu amo
E dou-me e inflamo…
E se penso
Sou denso,
E vivo e revivo
E sou cativo…
E crio e sonho
E sou medonho
E frio e fundo
E sangue do mundo.
*
Andréa Catrópa
(Ler mais desta autora em O Casulo, http://o-casulo.blogspot.com)
o sem-nome
vermelho-laca com grandes brasas por detrás dos olhos,
os cães ouviram o assobio,
o homem ouviu – lhe disseram é o que anda sem os pés,
o que se esgueira por entre as copas de árvore e não
é cobra – e virá
encarnado é texto, oração, pensamento,
desencarnado é sangue, suor, frio na espinha, a ameaça
da terra, o chão.
relógio
o coração quando
pára antes
borra de
lentidão
as coisas ou
subitamente paira
(apesar da
inquietude) como um
beija-flor?
azuis
sob o azul magnífico
da asa o marrom
quase lama indistinguível
das folhas secas
no vôo camuflado
a borboleta sobrevive
negando voltar para a terra
seu espelho
do céu
sob as ondas
vamos a um lago
ou cachoeira imaginária
um pouco de torpor é preciso
talvez lá
nos espere um outro reflexo
estranho como deve ser o rosto
de um afogado
*
Pedro Russo Moreira
(Sobre o tráfico de mulheres)
As formigas nos joelhos de pernas flectidas
Comem com doçura de selvagem
A cândida virgindade dos seios.
Dedos no cabelo alterado
O caminho do pescoço pela voz
Em sons segue a veloz formiga.
No esquiço dos lábios
Com pontos de cor referenciais
Encontra no umbigo o centro
De perna cruzada, pé descalço
(mas não desprevenido)
Corre com ela essa formiga
Não conformada com o negócio,
Regulando o passo, volta ao seio.
(que futuro?)
Tocou com mão de textura áspera
Que a imagem de uma ideia
Sai atada por cordel
E é lançada sem vector
Acaba por chegar à origem
Apaziguado e vencido
O campo sem o verde
Não aterra com trem
(nas portas do sol, uma nuvem)
O monumento a qualquer coisa
Ruiu pela terceira vez
A menina de amarelo, aparelho nos dentes
Mão estendida, assim…
Começava por responder ao que pedia
Nas ruínas erguidas de um salto regularizado.
As diferenças cá se sabem
- tenha cuidado!- dizia o mundo
(os pedintes num bairro de Lisboa)
A Luz das vielas entremeava na grelha
Carvão arrebatado… esbugalhado…
Na caravela das ideias (em forma latina)
Cantavam o fado sem guitarras ao pé de ciganos
A rapaziada almofadada, sujava a cara iluminada
Que a verdade é de todos, pela via da vontade
E pedir não é crime
Continuam as brasas no som
Nos becos são as esmolas calcetadas
Parece que a virtude, subsídios de humanidade,
Não reflecte sempre o sol
Até suja incorrectamente para marcar.
(das coisas da montanha)
Uma montanha não se move
No alto cantam ventos, não se move
Passa quem passa, faz que faz, não se move
Continuando a história…
*
Pedro Silva Sena
(Ler mais deste autor em A Árvore das Palavras(www.arvoredaspalavras.blogspot.com) e Bubok (www.bubok.pt)).
A Rua
1
está sentada
um esgar de dentes
pele de leopardo
o casaco
escuros os tons
da saia e da camisola
a boina de malha larga roxa aos pés
arreganhada
queixo assente na palma da mão clara
cotovelo fincado sobre o joelho
olhos olhando como bolas de bilhar rolando
quieta como um peixe em um aquário
apetece-lhe apertar o nariz às senhoras
puxar pelas gravatas
furar os pneus dos táxis
assustar as franzinas
adivinha palavras nas letras cruzadas
sentada pelas soleiras pisadas
quieta como um peixe em um aquário
olhos olhando como bolas de bilhar rolando
2
cobertor de papelão
sobre a calçada
um vómito estrelado
Metropolitano
1
O turista sorria
Como se lhe custasse
Apontou a lente ao retrato ousado:
Um pequeno cão que dormisse
Sobre o acordeão mal apoiado
Na boca o cesto da caridade
Do rapaz que a umas pestanas longas se prendia.
2
Podem crer que eu ficarei imensamenteagradecido a quem tiver avontadeouaoportunidade de me auxiliar
Caminha entre os jornais e os livros abertos frenético
Tresandando a vinho canta
Em ritmo rap
Com uma chave a caixa e a vareta toca
fitando.
Call Center
Sob o clarão fluorescente mergulhados em um fundo
Fechados como em uma caixa.
Filas de cadeiras em chamada
Ininterruptamente
Divisórias favos de saliva.
Pinças cravadas nas têmporas
Rigorosamente
Quinze minutos
Muito bom dia, o meu nome é
Uma voz
Muito boa tarde, o meu nome é
Um nome repetido
Muito boa noite, o meu nome é
Um número
Fechadas como em uma caixa
As gaivotas dão no ecrã das janelas discretas
O script azul leitoso.
(Ler também na revista Di Versos, nº 15)
*
Electrónicos
Páginas pessoais, blogues e revistas de poesia
Incomunidade
Incomunidade (http://incomunidade.blogspot.com) é o blogue de uma comunidade incomum, rede, lugar de actores, escritores, artistas plásticos e músicos, sediada originalmente na Sociedade Guilherme Cossul (Lisboa) e dinamizada por Alberto Augusto Miranda (ler em #1). Ao longo deste sítio bem estruturado podemos ler, observar e escutar, saber dos eventos organizados e publicitados, aceder a páginas pessoais, blogues e revistas de arte(s), e, finalmente, consultar o arquivo (2003-2007). Porém, antes de ressurgir no Blogger, Incomunidade esteve alojado no Sapo, que é onde encontramos os sete números de uma revista que o Alberto Augusto Miranda editou entre Maio de 2003 e o Verão de 2004 (http://incomunidade.com.sapo.pt).
Sibila
Sibila (http://sibila.com.br) é uma revista de poesia e de artes plásticas semestral, desembaraçada de fronteiras, dirigida por Régis Bonvicino (poeta), Alcir Pécora (crítico) e Charles Bernstein (poeta). Paralela à edição em papel - lançada em 2001 -, é editada uma versão electrónica onde o leitor tem acesso não só aos conteúdos impressos mas igualmente a secções próprias. É o caso, entre outras, da secção de «Estado Crítico», dedicada à crítica e à tradução, e de «Novos Autores», onde se publica poesia de autores menos (re)conhecidos - espaços estes que estão abertos à colaboração (internacional).
Publicado por Pedro Silva Sena às 10:20 PM | Comentários (0)