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janeiro 04, 2008
# 3
Janeiro | Junho 2008
Neste número: Palavras Poema de Régis Bonvicino * Ensaio Geral Poemas de Ricardo Ferreira de Almeida * Não te Salves Poemas de Mario Benedetti apresentados e escolhidos por Patrícia Alves de Matos.
*
«Deixa as palavras caírem sobre o chão
vazias
Talvez uma forma silenciosa
se liberte
Talvez um gesto em chamas
se levante»
As Palavras no Centro Vazio
António Ramos Rosa
*
Palavras * Poema de Régis Bonvicino
(Ler mais deste autor em: http://regisbonvicino.com.br; conferir ainda a revista electrónica SIBILA, http://sibila.com.br)
Palavras
Enforcaram um gravatá
injetaram inseticida
numa sanã-cinza
trucidaram onças pintadas
e principalmente suas fábulas
queimaram verbascos
pelo temor da proliferação de suas palavras
extirparam as cordas vocais de um tatac
sugaram todos os sangues-de-dragão: verniz
para as mesas de business
mataram ingás por vingança
explodiram uma borboleta em pleno vôo
asfixiaram náidades no Yangtze
vararam de balas,
fuzis disfarçados de átropas,
um pseudoescorpião,
um chupa-dente-de-máscara,
as flores da contra-erva
e um rabo-de-palha
roubaram o copirraite
de uma formiga, agora extinta:
patentearam seu spixii
para um game do second life
agora metralhe todo o conteúdo off-line
Ensaio Geral * Poemas de Ricardo Ferreira de Almeida
LUZES OU SEIOS?
Se isso são seios ou luzes verdes cheias de tempo que os gatos acarinham em paralelismo aos novelos abertos nas calçadas tenras de juízo
se isso são os teus seios não o posso dizer não os distingo
não tenho pena para o fazer nem o cansaço que me agitar a velha pistola de versos rudes
me ajuda. Eu vi-os nus na penumbra
enquanto as cigarras carpiam o verão de Santo António e o vento
soprava acenos no espelho dos teus olhos, nas ruas inquietas do teu corpo.
Vi-os nus, foda-se, evanescentes oblíquos
e estou dividido neste inferno da memória
usando os sonhos para me acalmar
vasculhando nos corredores do meu corpo o cheiro anis o almiscarado dos teus cabelos
e o silencioso sabor do teu sexo.
Se um dia voltares e não tiveres mais as gemas mas a carne desabrochada
e eternamente celeste
deixa que os toque
mostra-me a lucidez e o talco suave que enrolo nos lábios e por segundos sinto.
ENSAIO GERAL
Ensaio uma mão no teu decote
barco de silvas e omissões
coalho castrado na delicia gastronómica de te comer toda nua.
E lambo-te as mamas sem as tocar
apenas te mostro a vontade obscena no palpitar das pálpebras e no entendimento coeso das vazias aparas do meu sexo. E também te quero desta forma dizer
que te lambia entre as pernas os joelhos e os tornozelos as palmas das mãos e dos pés minha heroína de papel crepe cor de lírio.
Deliro com o teu decote obscenamente devotado aos meus sentidos proibidos.
QUE BOM SENHOR O’NEILL
Que bom senhor O’Neill
ter-se atravessado no meu caminho
não sabia que era um gato nem tão pouco me avisaram para
o cumprimentar com as sobrancelhas. Bicicletas encavalitadas no nariz? Que me diz à instantânea loucura de armadilhar paraísos para
estimar resistir ou resistir por estimação? Eu bem sabia, já mo tinham dito: a sua
clavícula não lhe permite olhar de lado, mas eu insisti.
Olhe lá senhor O’Neill, quem vai adivinhar uma coisa dessas
tratando-se de alguém como eu que nunca confidenciou nada a ninguém?
Eu insisto senhor O’Neill
em ser outro gato sem disfarces.
REALISMO OU TRAGÉDIA?
Agora que já partiste os dentes de tantas dentadas na observação das tartarugas
te esqueceste dessa sempre simpática visita de mão dada pelo parque verde da tua cidade
deste leite ao gato e deleitaste o marido
só te resta mesmo digo-to do fundo do meu coração virgem
dares-me um beijo com essa boca colorida e vacilante
até que os passos e a psicologia das personagens nos arrumem a um canto imitando o gorjeio dos passarinhos
estético e complacente, com os polegares cheios de Primavera.
Pois bem cara amiga,
agora que estamos sozinhos
só nos resta dar bom uso ao dente e ao certo não sei onde o acaso nos poderá levar
eu um trintão de joelhos falsos e tu uma trintona de outros tantos percalços.
Estes nossos acenos ao mundo são plataformas nuas decorativas arquitecturais
e o vazio que nos assalta as unhas é a carne do javali e da corça a juntarem-se para outra merenda que as cartas já explicaram. Então, que dizes? Vamos ser realistas ou insistir na tragédia?
POEMA AVULSO PARA DAR AO PULSO
Fazes-me sede e sedento estou
mascarando os pulmões de arrobas desertas de manhãs que se encontram no teu nariz
no teu sexo no teu iluminado pente, a poente de mim.
Todas as manhãs, quando posso, ponho de fora o melro e desato a macerá-lo.
Primeiro com a ponta dos dedos depois com a mão toda, enchendo-me das tuas memórias que afloram como aguardente bafejada ao ar em noite de geada.
Ainda que recorde os taninos frutados do teu ventre, derramando-se em gemidos foscos nas línguas que acendia para te iluminar te descobrir nesse ponto da alma onde agora só chega o desmame da mão
quando mais que aflita derrubavas as fronteiras e corrias em cima de ti mesma
a pele estalada e a faca dos dentes nos dentes a picarem
os olhos os calos
nada fica em pé, literalmente.
E a tua cara vai-se fundindo nas sombras da madrugada e chega com o frio das vozes a ordenar a manobra do carro do lixo, o latido do cão acordado em sobressalto e as cafeteiras a queimarem café vigorosamente. Nada fica de ti, nada resta do teu rosto.
Não te Salves * Poemas escolhidos de Mario Benedetti ~ Apresentação e selecção de Patrícia Alves de Matos
Mario Benedetti nasce a 14 de Setembro de 1920 em Paso de los Toros, Uruguai. Considerado como um dos grandes poetas da América Latina, a tradução e divulgação da sua obra em português é escassa, apesar de profícua nos mais diversos géneros, passando pela poesia, romance, novela e a crónica. Os dados biográficos sobre Benedetti abundam, qualquer pesquisa na Internet com o seu nome dará com certeza mais de 500,000 resultados de onde se podem extrair informações várias. O resto, esse resto que está de si nos poemas, fica para ser lido e relido na modesta selecção que aqui se apresenta.
(Ler mais deste autor em: www.germinaliteratura.com.br e ou http://www.cervantesvirtual.com/bib_autor/mbenedetti/)
Si Dios fuera una mujer
¿y si Dios fuera una mujer?
Juan Gelman
¿Y si Dios fuera mujer?
pregunta Juan sin inmutarse,
vaya, vaya si Dios fuera mujer
es posible que agnósticos y ateos
no dijéramos no con la cabeza
y dijéramos sí con las entrañas.
Tal vez nos acercáramos a su divina desnudez
para besar sus pies no de bronce,
su pubis no de piedra,
sus pechos no de mármol,
sus labios no de yeso.
Si Dios fuera mujer la abrazaríamos
para arrancarla de su lontananza
y no habría que jurar
hasta que la muerte nos separe
ya que sería inmortal por antonomasia
y en vez de transmitirnos SIDA o pánico
nos contagiaría su inmortalidad.
Si Dios fuera mujer no se instalaría
lejana en el reino de los cielos,
sino que nos aguardaría en el zaguán del infierno,
con sus brazos no cerrados,
su rosa no de plástico
y su amor no de ángeles.
Ay Dios mío, Dios mío
si hasta siempre y desde siempre
fueras una mujer
qué lindo escándalo sería,
qué venturosa, espléndida, imposible,
prodigiosa blasfemia.
Táctica y estratégia
Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos.
Mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible.
Mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.
Mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos.
Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple.
Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.
No te salves
No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo.
Pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin lábios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo.
Asunción de tí
1
Quién hubiera creído que se hallaba
sola en el aire, oculta,
tu mirada.
Quién hubiera creído esa terrible
ocasión de nacer puesta al alcance
de mi suerte y mis ojos,
y que tú y yo iríamos, despojados
de todo bien, de todo mal, de todo,
a aherrojarnos en el mismo silencio,
a inclinarnos sobre la misma fuente
para vernos y vernos
mutuamente espiados en el fondo,
temblando desde el agua,
descubriendo, pretendiendo alcanzar
quién eras tú detrás de esa cortina,
quién era yo detrás de mí.
Y todavía no hemos visto nada.
Espero que alguien venga, inexorable,
siempre temo y espero,
y acabe por nombrarnos en un signo,
por situarnos en alguna estación
por dejarnos allí, como dos gritos
de asombro.
Pero nunca será. Tú no eres ésa,
yo no soy ése, ésos, los que fuimos
antes de ser nosotros.
Eras sí pero ahora
suenas un poco a mí.
Era sí pero ahora
vengo un poco a ti.
No demasiado, solamente un toque,
acaso un leve rasgo familiar,
pero que fuerce a todos a abarcarnos
a ti y a mí cuando nos piensen solos.
2
Hemos llegado al crepúsculo neutro
donde el día y la noche se funden y se igualan.
Nadie podrá olvidar este descanso.
Pasa sobre mis párpados el cielo fácil
a dejarme los ojos vacíos de ciudad.
No pienses ahora en el tiempo de agujas,
en el tiempo de pobres desesperaciones.
Ahora sólo existe el anhelo desnudo,
el sol que se desprende de sus nubes de llanto,
tu rostro que se interna noche adentro
hasta sólo ser voz y rumor de sonrisa.
3
Puedes querer el alba
cuando ames.
Puedes
venir a reclamarte como eras.
He conservado intacto tu paisaje.
Lo dejaré en tus manos
cuando éstas lleguen, como siempre,
anunciándote.
Puedes
venir a reclamarte como eras.
Aunque ya no seas tú.
Aunque mi voz te espere
sola en su azar
quemando
y tu dueño sea eso y mucho más.
Puedes amar el alba
cuando quieras.
Mi soledad ha aprendido a ostentarte.
Esta noche, otra noche
tú estarás
y volverá a gemir el tiempo giratório
y los labios dirán
esta paz ahora esta paz ahora.
Ahora puedes venir a reclamarte,
penetrar en tus sábanas de alegre angustia,
reconocer tu tibio corazón sin excusas,
los cuadros persuadidos,
saberte aquí.
Habrá para vivir cualquier huida
y el momento de la espuma y el sol
que aquí permanecieron.
Habrá para aprender otra piedad
y el momento del sueño y el amor
que aquí permanecieron.
Esta noche, otra noche
tú estarás,
tibia estarás al alcance de mis ojos,
lejos ya de la ausencia que no nos pertenece.
He conservado intacto tu paisaje
pero no sé hasta dónde está intacto sin ti,
sin que tú le prometas horizontes de niebla,
sin que tú le reclames su ventana de arena.
Puedes querer el alba cuando ames.
Debes venir a reclamarte como eras.
Aunque ya no seas tú,
aunque contigo traigas
dolor y otros milagros.
Aunque seas otro rostro
de tu cielo hacia mí.
A la muerte de un canalla
Los canallas viven mucho, pero algún día se mueren
A Ronald Reagan
OBITUARIO CON HURRAS
Vamos a festejarlo
vengan todos
los inocentes
los damnificadoslos que gritan de noche
los que sueñan de dia
los que sufren el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo
vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabó el alma negra
el ládron
el cochino
se acabó para siempre
hurra
que vengan todos
vamos a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte
no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino
vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas
se acabó el monstruo prócer
se acabó para siempre
vamos a festejarlo
a no ponermos tibios
a no creer que éste
es un muerto cualquiera
vamos a festerjarlo
a no volvermos flojos
a no olvidar que éste
es un muerto de mierda.
Publicado por Pedro Silva Sena às 08:19 PM | Comentários (0)