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julho 02, 2008

# 4

Julho | Dezembro 2008

Neste número:


Inéditos * Poemas inéditos de Alves Bento Belisário e de Rui Tinoco

Tenho Raiva ao Silêncio * Poemas de Athaulpa Yupanqui apresentados e seleccionados por Patrícia Alves de Matos

Amanhã * Poemas de Raffaele G. Fragola traduzidos do Italiano por Pedro Russo Moreira


*


«Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastanto numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, e suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo do teu ser?»

(Remissão, Claro Enigma, Carlos Drummond de Andrade)

*

Inéditos


Alves Bento Belisário


Poemas inéditos - Maio 2006


Doem-me os mil lares sonhados…

De todos eles tomo as feridas no regaço.

Plos poros da minha pele seus traços desenhados,

Minha casa é feita de sexo de campos e flores em incestuoso laço…

Feita de pérolas de sol e árvores grávidas de sémen de todas as cores;

De pétalas de água e fragas e vento com maio embriagado de azul devasso…

E de pólen de pássaros e bichos incendiados em orgias de mil odores…

Doem-me os mil lares sonhados… O sangue de todos é meu passo…


~


Tenho-me cobardemente esquecido…

Toda a afectividade começa e acaba

Nos muros da nossa própria pele;

A ponte que vai de mim até ao outro

Tem a medida desmedida do infinito.

O outro é tão só e sempre um outro não eu…

Circuncisão e pretérito mais que imperfeito…

Se vivo vivo todo e sempre cada dia

Que passa à sombra de janela fechada

Agrilhoado ao sangue que carrego dentro

Das minhas próprias e solitárias veias.

Antinomia… corda de ligação… máscara de toque de mão…

Embarque num sol de asa em cadente balancé

Entre esta inexorável condição de só

E estes ossos encharcados de solidão própria.

Cobardemente me tenho esquecido…


Rui Tinoco

Poemas inéditos - 1992 / 1996

A terra fria
parece reflectir
o negrume.
Vejo outra vez
as sementes
todas mortas.
Os seus segredos
foram derramados
no vazio.
Sinto
A tristeza muda
desta noite
e o meu coração
inclina-se
para um lado.


~


Volto para cantar nos mesmos lugares
numa obsessão inadiável e urgente
que faz repetir-me
e ver-me de muitos lugares até à exaustão.
Em mim, as minhas histórias
estão sempre a mover-se.
Às vezes parece que é o seu devir,
a sua necessidade de sangue,
que me obriga a certas palavras e gestos
e àquelas noites compridas, mas velozes,
injectadas de dor e de amor
gravadas para sempre na memória
e depois na minha caneta.
Inspiro vida, aquela velha capacidade de arder
nos ossos até ao fundo,
de abraçar com igual entrega o amor
a dor e o ódio,
pois uma pessoa que já confundiu o seu corpo no meu,
nunca, jamais, conseguirá ser-me indiferente.


~


Uma lâmina de fogo
para cortar o Amor
em duas partes.
O que sobra dessa divisão?
As minhas mãos
infinitamente sós e vazias
e a boca que morde
os seus próprios sonhos,
espalhando sangue
- sangue vermelho –
sobre as partes do corpo
com que vos faço sinais:
Bom Dia
Boa Noite
Até À Vista.
As palavras vazias
com que cruzamos
os dias.


~


Afias
o meu sentido
de seta.
É nessa agulha
que me redescubro
homem.
Abraço-te
com os meus rios
de ternura
e o teu corpo
diz-me
para onde ir.
Que sintas
o correspondente
mistério feminino.
À tua alma
mulher
que me afoga.


Tenho Raiva ao Silêncio ~ Poemas de Athaulpa Yupanqui ~ Apresentação e selecção de Patrícia Alves de Matos


Atahualpa Yupanqui, pseudónimo de Héctor Roberto Chavero, nasce em Pergamino, Buenos Aires a 31 de Janeiro de 1908 e morre em Maio de 1992. Digo morre porque me parece que Yupanqui fosse um homem que não gostaria que dissessem a ‘data em que ele faleceu’, esse modo ritualizado e burguês de dar nome à morte. Foi compositor, cantor, violonista e escritor argentino. Filho de pai quéchua e mãe basca, mudou-se ainda criança com a família para Agustín Roca, em cuja ferrovia seu pai trabalhava. Na adolescência, começa a tomar aulas de violão com o concertista Bautista Almirón, viajando diariamente os 15 quilómetros que o separavam da casa do mestre. É dessa época o pseudónimo Atahualpa Yupanqui, em homenagem a Atahualpa e Tupac Yupanqui, os últimos governantes incas.
Vale a pena ver a longa entrevista dada por Yupanqui para a Radiotelevisão Espanhola em 1977, cujo link aqui deixo:
http://video.google.com/videoplay?docid=-1285573610793356399&hl=en
É difícil escrever-se qualquer coisa sobre esta entrevista, o melhor é vê-la e ouvi-la com atenção, porque é difícil encontrar palavras com tanta verdade lá dentro como as que Yupanqui nos entrega.


Los Hermanos

Yo tengo tantos hermanos
que nos los puedo contar;
en el valle, en la montaña,
en la pampa y en el mar.

Cada cual con sus trabajos,
con sus sueños cada cual,
con la esperanza delante,
con los recuerdos detrás.

Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.

Gente de mano caliente
por eso de la amistad;
con un lloro pa'llorarlo,
con un rezo, pa' rezar.

Con un horizonte abierto
que siempre esta mas allá
y esa fuerza pa' buscarlo
con tesón y voluntad.

Cuando parece mas cerca
es cuando se aleja mas,
yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.

Y así seguimos andando
curtidos de soledad;
nos perdemos por el mundo
nos volvemos a encontrar

Y así nos reconocemos,
por el lejano mirar;
por las coplas que mordemos
semillas de inmensidad

Y así seguimos andando
curtidos de soledad;
y en nosotros nuestros muertos
pa' que nadie quede atrás

Yo tengo hermanos
que no los puedo contar,
y una hermana muy hermosa
que se llama Libertad.


El Poeta

Tu piensas que eres distinto
Porque te dicen poeta,
Y tienes un mundo aparte
Mas allá de las estrellas.

De tanto mirar la luna
Ya nada sabes mirar.
Eres como un pobre ciego
Que no sabe adónde va.

Vete á mirar los mineros,
Los hombres en el trigal,
Y cántale a los que luchan
Por un pedazo de pan.

Poeta de tierras rimas,
Vete á vivir a la selva,
Y aprenderás muchas cosas
Del hachero y sus miserias.

Vive junto con el pueblo,
No lo mires desde afuera,
Que lo primero es ser hombre,
Y lo segundo, poeta.
De tanto mirar la luna...


Le Tengo Raiva al Silencio

Le tengo rabia al silencio
por todo lo que perdí.
Que no se quede callado
Quien quiera vivir feliz.

Un día monté a caballo,
Y en la selva me metí,
Y sentí que un gran silencio
Crecía dentro de mí.

Hay silencio en mi guitarra
Cuando canto el yaraví,
Y lo mejor de mi canto
Se queda dentro de mí.

Cuando el amor me hizo señas,
Todo entero me encendí.
Y á fuerza de ser callado,
Callado me consumí.

Le tengo rabia al silencio
Por todo lo que perdí,
Que no se quede callado
Quien quiera vivir feliz.


Trabajo, Quiero Trabajo

Cruzando los salitrales
uno se muere de sed.
Aquello es puro desierto
Y allí no hay nada que hacer.
Trabajo, quiero trabajo
Porque esto no puede ser
Un día veré al desierto
Convertido en un vergel.

El río es puro paisaje,
Lejos sus aguas se van,
Pero mis campos se queman
Sin acequias ni canal.
Trabajo, quiero trabajo,
Porque esto no puede ser,
Un día veré a mi campo
Convertido en un vergel.

Las entrañas de la tierra
Va el minero á revolver.
Saca tesoros ajenos
Y muere de hambre después.

Trabajo, quiero trabajo
Porque esto no puede ser.
No quiero que nadie pase
Las penas que yo pasé.

Despacito, paisanito,
Despacito y tenga fe,
Que en la noche del minero
Ya comienza á amanecer.

Trabajo, quiero trabajo,
Porque esto no puede ser.


Preguntas sobre Dios

Un día yo pregunté:
Abuelo, dónde está Dios.
Mi abuelo se puso triste,
y nada me respondió.

Mi abuelo murió en los campos,
sin rezo ni confesión.
Y lo enterraron los indios,
flauta de caña y tambor.

Al tiempo yo pregunté:
¿Padre, qué sabes de Dios?
Mi padre se puso sério
y nada me respondió.
Mi padre murió en la mina
sin doctor ni protección.
¡Color de sangre minera
tiene el oro del patrón!

Mi hermano vive en los montes
y no conoce una flor.
Sudor, malaria, serpientes,
la vida del leñador.

Y que nadie le pregunte
si sabe donde está Dios.
Por su casa no ha pasado
tan importante señor.

Yo canto par los caminos,
y cuando estoy en prisión
oigo las voces del pueblo
que canto mejor que yo.

Hay un asunto en la tierra
más importante que Dios.

Y es que nadie escupa sangre
pa que otro viva mejor.

¿Que Dios vela por los pobres?
Talvez sí, y talvez no.
Pero es seguro que almuerza
en la mesa del patrón.


Amanhã ~ Poemas de Raffaele G. Fragola traduzidos do Italiano por Pedro Russo Moreira


Raffaele G. Fragola nasceu em Stronogoli, na província de Crotone em Itália.
Licenciou-se em Línguas e Literatura estrangeira pela Universidade de Pisa, tendo colaborado com diversas casas editoras. Nos anos 70 e 80 colaborou com a revista PRAXIS de Mario Mineo.
Em 1983 fundou com Ugo Leonzio a companhia Doppio Teatro, activa até 1991.
Em 2002 publicou "Non più di un giorno", livro de onde apresentamos e traduzimos os seguintes poemas:


Amanhã

Espero o dia que vem
como uma promessa
Eu próprio me prometo
Voluntário infiel
ao dia que vem.

A noite estrídula resiste
orgulhosa e é testemunha

Virá pontual e prender-me-á
ao seu laço o amanhã fátuo


~


Domani

Aspetto il giorno che viene
come una promessa
Io stesso mi prometto
volontario infedele
al giorno che viene.
La stridula notte resiste
orgogliosa e ne è testimone.

Verrà puntuale e mi prenderà
al suo laccio il fatuo domani.


~


A Vida

Li e ouvi
chorei e ri
dividi com a violência o bafo
e o rasto nos olhos até aqui

Odiei
amei
a muitos menti. Sai, sai
peso e pena
aprendi
a moderação e o fim

Não é assim a vida?


~


La Vitta

Ho letto e ascoltato
Ho pianto e riso
L'alito ho condiviso alla Violenza
e negli occhi fino a qui
la scia.

Ho odiato
Ho amato
Ai più ho mentito. Via via
il peso e la pena
ho imparato
la misura e la fine.

Non è questa la vita?


~


New Gitans em Lisboa/ Balada 2000

As guitarras estavam duas a duas,
altas e bem feitas a pele escura
dura desta maneira dentro do ar
em flores de azulado de sol.
Carregavam uma velha vida a tiracolo
com um traço que se via de longe,
via-se
enquanto emparelhadas de modo soberbo
atravessavam a rua imaculada e clara
As guitarras estavam duas a duas....


Na direcção da grande praça e outra coisa
não é senão mar. os dedos iguais
notas rasgando em sincronia as cordas
de amor divido diziam talvez estivesse
doente ou talvez não fosse mais
que nostalgia de velhos icones
medidos e revelados no passo
airoso dos lusitanos!
As guitarras estavam duas a duas....


Ó Lisboa do sol! cantavam,
Lisboa dos mares, Lisboa de um só
Fado, não suscitando promessas
com o engano das estrelas até que
a alma se adoenta, mas levanta-se
uma só vela e que seja aquela
a tua bandeira- ou assim soava,
se bem que mais não eram que raparigas
à sua volta . Mas via-se
que cada uma estava pronta a tornar-se vela
e estrela, e que os olhos de todos os enquadramentos
faziam do azul sobre o branco
onde os dois andavam como novos guerreiros
um dia de verão perto do meio-dia.
As guitarras estavam duas a duas....

Estava um verão de luzes de sons
que à noite corriam pelas colinas
tanto de Alcântara como de Alfama, com os
pratos e grelhas de mil
Sardinhas. Onde era a festa
de maus cheiros de fraqueza do Fado,
chamariz de cães
de gatos com calor
de arrotos e escarros dos velhos
a noite, cabeleiras de insónias sobre os panos
nos parapeitos; de jovens amores
de passo ligeiro, de cumes alunados
na planta plana do Tejo.
Estavam duas... e carregavam uma velha vida
a tiracolo...

Tudo mantinha Lisboa fiel, cada coisa
abraçando o seu canto de luz
sob os tectos abrigados da fervorosa
Augusta alegre meretriz de todos.

As guitarras estavam duas a duas...


~


New Gitans em Lisboa/ Balada 2000


Erano in due e due le chitarre,
alti e ben fatti la pelle scura
dura di fatta dentro l'aria
in fiore d'azzurrino di sole.
Vecchia vita portavano a tracolla
ad un tratto venendo di lontano,
si vedeva
mentre appaiati superbamente
la via solcavano maculata e chiara.
Erano in due e due le chitarre...

Verso la grande Praça e oltre non è
che mare. Le dita eguali
note strappando in sincrono alle corde
d'amor diviso dicevano forse
malato o magari non era
che nostalgia di vecchie icone
misurate e svelte al passo
arioso dei lusitani!
Erano in due e due le chitarre...

Oh Lisbona del sole! cantavano,
Lisbona dei mari, Lisbona d'un solo
Fato, non accendere promesse
con l'inganno delle stelle finchè
l'anima ci ammali, ma alza
una vela sola e quella sia
la tua bandiera- o così suonava,
benchè non ci fossero che ragazze
attorno a loro. Ma si vedeva
che ciascuna era pronta a farsi vela
e stella, che gli occhi di tutte frames
facevano dell'azurro sul bianco
ove in due andavano come nuovi guerrieri
un giorno d'estate dentro al midday.
Erano in due e due le chitarre...

Era un'estate di luce di suoni
che la notte correvano i colli
d'Alcàntara come di Alfama, coi
piatti e le griglie dalle mille
sardine. Dov'era festa
di cattivi odori di languori di fado
richiamo di cani
di gatti in calore
di rutti e scaracchi di vecchie
la sera, insonni parrucche sui panni
dei davanzali; di giovani amori
dal passo leggero, di cime allunate
nella pianta piatta del Tago
Erano in due... e vecchia vita
portavano a tracolla...

Tutto teneva Lisbona fedele, ogni cosa
abbracciando il suo canto di luce
sui tetti a ridosso della fervida
Augusta allegra puttana di tutti.

Erano in due e due le chitarre...

Publicado por Pedro Silva Sena às 07:47 PM | Comentários (0)